Bom e velho Lau

Seu nome era Laudelino. O mesmo do meu sogro. Deve ser nome de silveirense de alma boa. Tio Lau era irmão mais novo do meu pai, de outro casamento do pai deles. Morava na nossa chácara de Catanduva, quando eu era pequena. Foi um herói da nossa infância. Conhecia passarinho pelo canto e tinha muita habilidade manual. Fazia brinquedos de madeira para nós: espingardinha, foguete e até uma roda d'água. Seu ofício era cuidar de criação e da terra. Interessante. Dois irmãos tão diferentes na profissão e tão amigos e semelhantes na beleza do espírito. Ambos perderam a mãe cedo e depois, o pai. Foram então morar com os padrinhos. Os do papai chamavam-se Eduardo Ferreira de Abreu e Anna de São Bento Abreu, os do tio Lau, não sei. Sei que, mocinho, ele foi embora e criou-se no mundo. Foi soldado da polícia florestal no Pontal do Paranapanema, na 1ª metade do século XX. Depois começou a trabalhar na roça. Tio Lau tinha as mãos grossas, calejadas do cabo da enxada, mas nunca ninguém as pôde flagrar em um gesto rude. Ao contrário. Era gentil e terno. Teve pouquíssimo estudo formal, mas uma educação incomparável. Era incapaz de uma palavra que pudesse ferir alguém. Antonio, meu irmão, era criança e achava muito importante saber falar inglês. Na sua ingenuidade infantil, deu a ele, certa vez, um livro didático de inglês. Para nós, tio Lau era homem muito sábio (e era mesmo!). Conta minha mãe que ele lhe mostrara o livro sorrindo, comovido. Ele, que mal sabia gramática da língua portuguesa, certamente não usaria aquele livro para aprender outro idioma. Mas, o mais importante era que seu português inculto jamais foi usado para magoar alguém. Na ocasião, deixou meu irmão muito feliz ao guardar o livro, cuidadoso e agradecido. Certa vez, disse à mamãe que, na nossa casa, ele conhecera o que era uma família.
Quando mudamos de Catanduva para Taubaté, ele mudou-se para São Paulo. Segundo me contou, morava na Vila Guilherme. Papai sabia onde ele morava e o visitava e assistia, se necessário. Nunca fui à sua casa; não precisava, ele vinha à nossa. O mês de setembro, ele passava inteiro conosco. Era o mês de seu aniversário e do meu também. No meu coração, estava certa de que ele tinha escolhido nascer no mesmo mês que eu de propósito, por ser eu a sobrinha mais querida. Eu achava que ele jamais tocou no assunto para não desapontar meus irmãos, que também o amavam muito. Também eu nunca lhe disse nada. Para mim, era o nosso segredo. Ele nunca soube disso, mas nos meus poucos anos, eu achava que sim.
Eu tinha 10 anos quando ele morreu. Foi a segunda grande perda que tive. A primeira tinha sido no ano anterior, da tia Lilia, que era irmã a mais nova da minha mãe e a pessoa mais doce que conheci. A vida dá, a vida tira. Tira? Será? Não continuam conosco os nossos amados, como que a desafiar o tempo, a distância e as dimensões da vida? Tio Lau está aqui. Lindo, na sua pele castigada pelo sol e no seu cabelo grisalho, forte, íntegro, carinhoso, feliz.
Tio, obrigada por ter me deixado brincar com você, penteado seu cabelo, sentir-me tão amada e importante. É com as lições do amor que recebemos que nosso coração aprende a amar também. Que saudade! Gostaria que meus filhos o tivessem conhecido, para que também pudessem ter as maravilhosas lembranças que eu tenho. Felizes os anjos do céu, que compartilham sua amorosa presença.


Maria Inês, em 05 de setembro de 2006, data do aniversário do tio Lau.


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