Se palavras conseguissem contar...

Sempre desejei saber escrever crônicas.
Olho algumas pessoas, assisto a determinados fatos e penso que mereceriam que alguém (por que não eu?) escrevesse uma crônica sobre eles.
Meu pai é uma dessas pessoas. Gostaria de saber narrar como era sua voz de silveirense, seu humor e seu gosto pela vida.
Gostava de passarinhos e fez um viveiro com árvore dentro. Naquele tempo, era costume criar em gaiola, mas lá em casa o viveiro era enorme. Na minha lembrança, guardo a visão de cima, onde eu subia, menina, para ler Monteiro Lobato.
Se eu conseguisse, encantaria os leitores com sua alma sonhadora e terna e seu espírito desejoso de viver novos aprendizados. Tinha o costume de ler na cama, inclusive a gramática do Evanildo Bechara e sabia tudo de seu ofício de cartório. Não posso explicar o que foi que aprendeu mais, talvez saiba melhor o que ensinou. Nunca recebi uma repreensão na frente de meus amigos, ou de quem quer que fosse. Nossa mesa era animada de conversa e, se alguma vez, o nome de outro fosse mencionado, de forma indevida, papai simplesmente começava a tirar a mesa, em sinal silencioso de reprovação. Na hora, a conversa mudava de rumo. Assim ensinava.
Tinha um jeito próprio de contar como era a vida e as mangueiras da sua infância, em Silveiras. De lá saiu com família, para São Paulo. De São Paulo, para Catanduva. E de Catanduva, de volta às raízes, ao Vale do Paraíba, mas para Taubaté. São de Taubaté, a maior parte das minhas recordações, quase tudo que posso contar dele.
Era solidário e gostava de fazer amigos, mas aqueles de boa prosa. Mas, gostava mesmo, era de nós, família rica de filhos, genros, noras, netos e bisneto que chegou a conhecer e tirar fotografia no batizado. Em número, quanta gente! Mas, para nós, uma só família.
Convivi com ele por dezesseis anos antes que fosse para a glória de Deus. Foram dezesseis anos em que fui amada e compreendida como todos os filhos merecem ser. Tempo em que eu sabia que havia chão firme sob meus pés e que a vida era boa. Só não sabia que a contagem emocional do tempo podia ser tão diferente daquela do relógio. Não sabia também que sua voz ficaria gravada além do som, nas conversas, na sutileza do humor, nos conselhos, nos "causos", na vivência do cotidiano. Já vivi mais duas vidas, iguais em tempo a que vivi com ele. Em quantos momentos, no passar dos anos, serviu-me de firme referência. Reconheço sua presença até na devoção que tenho por Nossa Senhora, a quem pediu que me protegesse, no meu álbum de recordações.
Posso dizer também que marcou sua presença neste mundo pela elegância e bondade.
Mais não posso falar, as palavras faltam quando o coração se manifesta.

Maria Inês - 23/12/2003


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