Coisas do coração

Duas meninas lindas sentadas em uma mesa de pizzaria. Era este o cenário da história de "os meninos que a gente olha não olham pra gente ou não chegam. E se chegarem, o que vou falar?" Vim para casa com algumas perguntas. E os meninos que olham para elas ou querem chegar e sequer são vistos? É uma pergunta. Não tenho pretensão de saber respostas. Apenas gostaria de saber porque caímos na armadilha de achar que existe uma hora cinematográfica para conhecer alguém que influenciará o eixo de nossas vidas, alguém que esperaremos a hora de encontrar com expectativa e carinho; para quem nos arrumaremos com cuidado. Por que não aceitamos a simplicidade do cotidiano, único palco possível para todos os acontecimentos?
A cena de filme, com a mulher vestindo uma roupa maravilhosa e maquiagem e cabelos impecáveis, o homem tão bem arrumado que parece que podemos até sentir o perfume que usa, internalizou-se. A música entra, a luminosidade diminui, os dois se aproximam. Que lindo. Mas é só cena de filme. E a cena da vida do nosso encontro com aquela pessoa, como será? Aonde? Como? Cartomantes e videntes devem saber contar como esta pergunta não sai da pauta. Tenho uma sobrinha que adora perguntar aos casais como se conheceram. Sua curiosidade instigou a minha também. E as histórias são simples como amar. Conheceram-se no supermercado, no posto de gasolina, outros na escola, outros em uma reunião de trabalho, em casa de um amigo ou parente. Nesses nossos tempos, alguns casais se conheceram pela internet e fizeram um upgrade do virtual para o real. Sem trilha sonora, maquiagem ou smoking. Cenas comuns da vida que não será mais a mesma depois desse encontro.
Outra coisa que tem me chamado atenção é como pessoas felizes são, freqüentemente, comparadas a adolescentes. "Fulano está apaixonado como um adolescente", "andam de mãos dadas como adolescentes", "está namorando, parece um adolescente". Como se o coração consultasse certidões de nascimento, estatutos ou cartórios. E como se a maturidade não fosse condição indispensável para valorizarmos os momentos que estamos com quem amamos. E aí o rol é bem grande: filhos que, com o passar do tempo, vão ficando mais tempo fora de casa até se mudarem de vez; pais, cuja presença nos dá o conforto do aconchego, da proteção e do conselho; amigos queridos, que os compromissos impedem de vermos sempre que queremos e, muitas vezes, até quando precisamos de sua amizade (sabê-los já é importante!); irmãos, parceiros na vida, conhecedores de nossa alma; e a pessoa amada, exemplar único, presença insubstituível, amálgama concedido por Deus para nos dar completude.
Procuramos fórmulas, ansiamos por saber o futuro e só o que podemos ter é tudo que precisamos: o presente. Presente é atualidade, é o dia de hoje, é comparecimento. É também o que se oferece a alguém e o que oferecem a nós. Não vamos deixar passar, perder a oportunidade do aqui e do agora, mais do que olhos abertos, de coração presente.

Maria Inês, em 06/03/2005.


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