Coração Inconfidente

"Não sei agir como parte do rebanho". Quantas vezes ouvi esta e outras frases ditas por minha mãe, tão ciente e tão tranqüila de si mesma. A elas seguiam-se histórias de questionamento, de convicção pessoal, de sabedoria. Chamaram-me a atenção duas delas, por não ter posto sua assinatura em documentos encaminhados pela direção da Escola onde trabalhava. Responsável e ciosa do dever e da hierarquia, seu senso de justiça estava acima de tudo.
Desobediência civil? Talvez. Filha de bravos, com certeza. Aprendeu em casa que "O Direito" era mais que o nome do jornal do vovô, mas um sentido de vida. Cresceu em ambiente de circulação de notícias, discussões políticas e luta pela democracia. Tomou gosto. Filha de mineiros, como poderia ser diferente? A palavra liberdade já nasceu gravada no seu coração, com todas as letras maiúsculas.
Vovô, homem diligente, sabia instruir processos, que passava a um advogado apenas para assinar. Vendia fazendas, teve armazém. Além disso, levava mamãe a bailes e gostava de assobiar. Manso de coração, sabe-se de uma surra dada por arte feia dos filhos. Eles convenceram um amigo que guiar era muito fácil e o garoto desceu, ladeira abaixo, apavorado, a rua principal de Uchoa. Não se machucou, mas meus tios levaram surra de cinta, só que dada em cima de um cobertor... Vovó, mulher independente, solícita com a família e firme nas decisões, sempre teve o respeito do marido. Educou os filhos com o coração e o exemplo. Mamãe fez o mesmo. Com meu pai viveu com amor, respeito e harmonia.
Meus tios Acyr e Lula herdaram a veia jornalística do pai. Mamãe também escreveu no Direito. Assinava De Carvalho, como tio Acyr. Tio Jefi é, há mais de 30 anos, um devotado à causa dos Alcoólicos Anônimos. Tio Zezinho morava longe, mas mesmo assim veio nos visitar quando papai morreu. Tia Lilia morou conosco. Eu gostava tanto dela que até hoje a sinto comigo. Gostaria muito de ser, em alguma coisa, igual a ela. Interessante é que cresceram em cidade sem padre, mas cada um encontrou seu caminho próprio de adorar a Deus e cultivar a religião.
E as irmãs da vovó? Tia Dita, maravilhosa: "Quem fala muito em banho, moral e educação, é porque não está acostumado a nenhum dos três". E tia Rita, fantástica, com mais de 95 anos, a acompanhar a neta em viagem, "porque uma companhia é sempre necessária". Guardo com carinho uma frase da tia Agostinha referindo-se a meu pai como "um homem nobre". Na casa da acolhedora tia Maria, almocei uma vez, num domingo, com muita gente, e eram todos filhos e netos. Com a tia Doca não tive oportunidade de conversar. Tia Dada, esta era feliz e sabia. Em uma carta escrita à mamãe, ela dizia que sua "alegria movimentava a máquina da vida e fazia sua família ter grande confiança nela mesma". Por parte do vovô, só conheci tia Tereza. Uma tarde, conversamos bastante na praça de Uchoa. Ela me falava de pessoas que tinham sido contemporâneas da mamãe, para que eu pudesse contar em casa, quando voltasse. Foi muito amável comigo. Todas mulheres interessantes e orgulhosas da família.
Sobre decisões a tomar na vida, mamãe costuma dizer que, nestes momentos, segura firme na mão de Nossa Senhora e confia. Nunca se arrependeu. Enfrentou trabalho e responsabilidades, lutas e desafios.
Assim se formou a mamãe. Nesta família de pessoas ricas e singulares, em casa com aroma de pão caseiro, entre árvores no quintal, clube, amigos e livros. Em chão paulista de coração inconfidente.

Maria Inês, em jan/2005


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