Para Darlene

Vou contar o que vi hoje, em uma rua da periferia.
Começou com um grupo grande crianças brincando de "casamento". Foi assim: alguém jogou uma garrafa vazia de refrigerante para trás e quem pegou, ficou sendo a "noiva". Esta pôs uma almofada na barriga e um lençol enrolado no corpo e corria atrás do "noivo" para que se casasse com ela. Sob risadas de todos, ele negava. Ela insistia, dizia que já tinha um menino dele e agora esperava outro. Fez até ameaça com a tal garrafa que agora servia de buquê. Por fim, mudou de tática. Disse a todos que se houvesse casamento, haveria festa com feijoada. Ganhou a torcida. Passaram todos a correr atrás do "noivo para que se casasse". Tudo com muita risada. Após a promessa do enlace, o grupo se dispersa. Na seqüência, saiu uma mulher no portão e gritou, num melodioso sotaque nordestino: Darlene! E lá veio ela, linda e rindo ainda das correrias do "casa ou não casa". Era uma menina de seus sete, oito anos. Chegou até perto da mulher (que agora já conversava com outra que havia saído atrás) e distraía-se dançando. Era um requebrado daqueles dignos de passista com salto alto na Marquês de Sapucaí. Parecia um ensaio dirigido pela própria protagonista. Entraram também. Ficou na rua apenas um grupo de meninos, a cerca de 50 metros de onde eu estava. No local tinha um carro em mau estado, sem vidros. Um dos garotos subia no porta-malas e, flexionando os joelhos, balançava o carro. Quando parou, entrou no banco de trás pela passagem deixada pelo vidro que faltava. Outro menino, porém, já havia sentado no melhor lugar: o banco do motorista. Os que ficaram do lado de fora balançavam o carro.
Tentei compreender aquele universo feliz e desprotegido. O que os aguarda? Como construirão suas vidas, tão desejosas de diversão e convívio? Com que fios tecerão seus relacionamentos e parcerias? Que contribuição social será a sua?
E quanto a nós? Nossos modelos e teorias conseguem contemplar a realidade de Darlene e seus amigos, ou minimizamos nosso saber em si mesmo?
Podemos tratar nossa profissão como mera correia transportadora em uma repetitiva linha de produção. Ou até como instrumento de projeção pessoal. Mas seria muito pequeno. Podemos tocar as almas de nossos alunos para o exercício generoso da profissão que escolheram. Podemos dar voz a quem sabe menos que nós do dia de amanhã. Porque, como escreveu Ferreira Gullar, "o canto não pode ser uma traição à vida e só é justo cantar se o nosso canto arrasta consigo as pessoas e as coisas que não têm voz".
Maria Inês, em out/2004, pelo Dia do Professor


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