Prefácio

(para dar estilo a este caderno de anotações a que a memória for buscar)

Desde que me aposentei, fui perdendo o exercício obrigatório da escrita, com prejuízo evidente da caligrafia.
Até assinar um cheque foi se tornando penoso, quando a musculatura da mão se negava a obedecer aos movimentos exigidos. Daí minha defesa: copiar receitas culinárias que um dia, talvez pudessem ser usadas. Seriam?
Foi quando a Maria Inês teve a idéia: "Registre a sua memória, ao invés de copiar receitas. Vou comprar um caderno de capa dura para isso."
Ei-lo aqui. Espero ser feliz nas lembranças.

Ilmen / Ismênia

Vou começar pelas frases da dedicatória, bem lembradas pela Maria Inês.

1-"Lá vai a Ismênia com as suas jóias..."

Quem assim dizia era Leonor Baggio Arruda, minha colega no Grupo Escolar "Paulo de Lima Corrêa", em Catanduva. Quando me via acompanhada da fileirinha dos filhos e, naturalmente ciosa deles, lembrava-se de Cornélia, a dama romana, mãe de Gracos. Numa reunião com patrícios romanos que exibiam suas jóias, Cornélia foi buscar os dois filhos: "Eis aqui as minhas jóias." Eram o seu orgulho.
Assim, muito grato para mim, lembrar que a Leonor me associasse a Cornélia. Hoje eu posso afirmar que estava cheia de razão. Sou Cornélia até hoje porque nos meus filhos está a minha riqueza e são o meu maior adorno, motivo de muito e justo orgulho. Graças a Deus!

Volto a falar de Leonor, ou Léo, como a chamávamos. Leonor me distinguia com gentilezas. Também gostava de dizer: "-Toda vez que vejo notícias da Rainha Elizabeth da Inglaterra, eu me lembro da Ismênia. Quando nasceu o Príncipe Charles, nasceu o Antônio Joaquim. Quando nasceu a Princesa Anne, nasceu a Ana Cristina. Há qualquer coisa que uma lembra a outra..."
"-Coincidência..." dizia eu.
E o que poderia dizer?

Esqueci-me de dizer atrás que satisfazia meu ego ter a imagem de uma rainha associada a minha pessoa. Pelo menos, era lisonjeiro...Devo reconhecer que Léo era bem amável e me olhava com amizade.
03/03/93

Segunda frase - Dada

Ontem, dia 8, Dia Internacional da Mulher, foi, ou seria, aniversário da Dada, irmã da minha mãe. Geralda era seu nome, mas cresceu e viveu como Dada. E era coerente com o seu apelido, pois seria difícil encontrar alguém que fosse tão "dada" como ela. Estava sempre dada a promover alguém, a se dar para que o ambiente à sua volta mantivesse o clima de alegria, de cordialidade.
Como ela escreveu em sua última carta para mim, sua alegria "impulsionava a máquina da vida", inspirando confiança a seu redor.
Tinha um jeito peculiar de saber elogiar os filhos, os netos; era tiete da família. Quando estive, o ano passado, em Itapira, fez questão de me mostrar os retratos das suas reuniões familiares (bodas,etc) para poder exibir, com orgulho e carinho, a beleza da família. Suas filhas são muito bonitas; Milu (Ilmen Lúcia) é minha afilhada de crisma. E me apresentou também o programa de um recital de música onde sua neta, filha do Renatinho, se apresentaria como pianista, em Zurich.
Sempre teve "pose", sem ostentação, nem intenção. Lembro-me de uma ocasião. Em Uchoa, na Casa Moderna, do Adib Gattaz, franco admirador da Dada. Naquele tempo, as moças costumavam "dar voltas", à tarde. Formavam seu grupo e passeavam pela cidade. Eu sempre acompanhava a Dada, de quem sempre fui companheira, apesar de ser menina na época.
As lojas não tinham hora de fechar; dependia da boa vontade do dono. Assim, numa dessas andanças, o grupo se acomodou na Casa Moderna, a maior da cidade. A Dada se instalou à porta, sobre uns fardos, calmamente, com toda "elegância" possível, olhando, a cavaleiro, a rua, os transeuntes. E o Adib, para os circunstantes: "-Vejam. Parece uma rainha."
E assim a Dada foi, com seu humor, acrescido as vezes de uma ironia inteligente e fina, criando o séqüito de admiradores. Quem a conhecesse, teria que amá-la. E como!
Dela se poderá dizer, parafraseando o soneto: "-Foi mulher e muito, na vida, deu e recebeu amor."

Em tempo - Dada era a irmã caçula da mamãe. Eu me recordo da Dada se lembrando: "-A Ana, mal eu chegava já me dizia: Vá na Casa Moderna escolher um sapato e um vestido pra você."
Era uma forma de carinho sempre referida pela Dada, na sua maneira de dignificar as pessoas.
09/03/93

Dada teve 6 filhos: Renato (nome do pai, Renato de Lucca); Lígia Ursulina (para homenagear a vovó Ursulina); Áurea Helena (lembrando nossa prima Áurea do tio Chico e venerada em Ouro Fino); Ilmen Lúcia, a Milu, para agradar à mamãe; Rita Marisa, em honra de tia Rita; Carlos Agostinho, brindando a tia Agostinha. Dá para perceber como o espírito fraternal era forte na Dada e como o Renato endossava tais atos de suma delicadeza. Paz a suas almas.

Obrigada por terem sido, para mim, uma "feliz circunstância", incorporada ao que sou.
10/03/93

Ser tiete, fã apaixonada, dos filhos, da família - eis a grande lição de como se educa, deixada pela Dada. "Alguém só cresce se for levado a sério." E estimulado.
11/03/93

Esta frase entre aspas, estimulante para o saber fazer crescer, eu a li num livro que Iolanda me deu: "Você existe. Por isso é importante." Dada era intuitiva nesse pormenor, que nada tem de menor.
27/04/93

Terceira frase - Coringa

Agora sobre o Coringa. Quem era ele? Um cachorrinho comum, não sei se eram manchas brancas no pêlo preto, ou vice-versa. O certo é que era muito esperto. Pertencia à tia Rita, quando ela e o tio Aníbal moravam em Uchoa. O nome deve ter influído na boa sorte do tio Aníbal que nessa época, lá pelo idos de 1936, conseguiu arrebatar 200 contos de réis na loteria. De Uchoa foram para São Paulo, onde tia Rita mora até hoje. O Coringa, porém ficou conosco. E era companhia para todo lugar a que se fosse. Se a mamãe quisesse que ele ficasse em casa, teria que chamá-lo da porta da rua, calçada de chinelos. Se a visse de sapatos para sair, plantava-se no meio da rua e nada de entrar, teimoso como o quê. Mamãe desistia e lá ele ia à frente, parando a cada esquina, aguardando rumo a tomar: casa da vovó Donana, ou da tia Maria: chegava sempre antes, anunciando a visita. Se o destino fosse o cinema, acomodava-se na 1ª frisa à frente, sempre vazia por ser próxima à tela. De cadeira, acima da platéia, observava o filme e as pessoas, quando acendia a luz. Era notável, e o pessoal se divertia com o jeitinho dele, expectador de orelhas em pé e olhar atilado. Como havia intervalo (o cinema só dispunha de um projetor), a cena se repetia a cada mudança de rolo na projeção. O Coringa não deve ter ficado só em nossa memória; muitos hão de se lembrar dele também. Foi merecedor do rabiscado destas linhas e merecedor de linhas mais expressivas que estas. Coringa era o seu nome!

A propósito do cinema, é oportuno dizer que as famílias de Uchoa alugavam as frisas por mês. Assim mantinham as sessões (3ª, 5ª, sábado e domingo), onde se assistiam aos filmes alemães da UFA; dos mexicanos, com José Mojica, que de ator e cantor, se tornou frade mais tarde; aos americanos, com Ruth Rolland, Douglas Fairbaus, Mary Pickford, Carlitos William Desmoud, Clara Bow, Sue Carrol, Buster Keaton, Chico Bóia, Harold Loyd (nem sei mais como se escreve - há tanto tempo...) e tantos outros mais.
Taubaté, 28/04/93


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