O Cinema

A propósito do cinema, é oportuno dizer que as famílias de Uchoa alugavam as frisas por mês. Assim mantinham as sessões (3ª, 5ª, sábado e domingo), onde se assistiam aos filmes alemães da UFA; dos mexicanos, com José Mojica, que de ator e cantor, se tornou frade mais tarde; aos americanos, com Ruth Rolland, Douglas Fairbaus, Mary Pickford, Carlitos William Desmoud, Clara Bow, Sue Carrol, Buster Keaton, Chico Bóia, Harold Loyd (nem sei mais como se escreve - há tanto tempo...) e tantos outros mais.
28/04/93

O assunto cinema é capítulo (ou capítulos à parte) que não se esgota.
Desde os tempos em que dormia e voltava carregada, como o tio Zimbres se lembrou, por ele, ainda noivo da tia Conceição, eu cresci, e vi o cinema crescer, evoluir. Desde os filmes de “vaqueiros” (como chamávamos em linguagem nacional os cowboy ou farwest, ou western, nos americanismos de hoje); dos filmes "em série", cheios de perigos, que esperávamos uma semana para saber como o herói se salvaria ("Volte na próxima 3ª feira") no episódio seguinte: aos dramas épicos, alemães, com Nita Naldi, Ivan Mosjushine (russo); à seqüência das altas comédias de Hollywood, dos musicais de 1001 figurantes; do tempo da guerra e seus noticiários; enfim; é tarefa ingente me lembrar de tudo.
O certo é que Uchôa também teve o seu "Cine Paradiso", com outro nome, o de "Cine Central" - propriedade do Sr. Alfredo Lopreto, durante muitos anos. Ali nossos olhos engoliam o mundo, e a fantasia enriquecia a alma levando, além do nosso horizonte de cidadezinha do interior, o conhecimento global da humanidade. Trazíamos para nossas brincadeiras de criança, o chapéu largo de Tom Mix, seu cavalo branco que empinava as patas dianteiras; o lindo chapéu que encobria os olhos da Madge Bellamy; as esquisitices do estrábico Ben Turpin; as aventuras inteligentes do cão Rin-tin-tin....
29/04/93

Há tanta coisa para se falar de cinema...Acredito que o aluguel das frisas tenha ido até os meados da década de 30. Se tanto, porque os tempos áureos do apogeu financeiro da região, de fazendas e fazendas do rico café, foram estremecidos pela crise de 1929, quando se quebrou a Bolsa de Nova York. Mas antes, no tempo do cinema mudo, o som era preenchido por uma orquestra pequena, de músicos locais. Mais tarde, uma vitrola substituía os músicos. Eu me lembro de alguém de boa vontade sempre correndo para pôr o disco outra vez a girar. Talvez seja por isso que eu não aprecie muito "Ondas do Danúbio", tal a repetição do mesmo disco nas sessões de cinema. É de se esperar que a coleção fonográfica da época não fosse muito variada.

O cinema falado chegou para nós no início dos anos 30, com o filme "Rio Rita", com a artista mexicana Dolores Del Rio, com produção de Hollywood. Eu estava em Rio Preto na ocasião, e pude ver a propaganda nas ruas. Propaganda de filme sempre houve e, quando era "super produção", o reclame era bem maior.
Para "O corvo", um caminhão com um "pássaro" negro, enorme, na carroceria, desfilava pelas ruas de Rio Preto. Nas esquinas, lá em Rio Preto, como em Uchoa, havia placas com cavaletes, apoiadas em postes ou paredes, anunciando a programação de filmes. E quando um filme era considerado excepcional, o interesse era mais solicitado, como no caso de "A Severa", filme português. A atriz veio ao Brasil promover o filme, rico em fados e touradas. Como era falado em português, dispensava as legendas, o público afoito correu em massa. Como conta nossa empregada, muitos se assustaram com os touros invadindo a tela, "ameaçando" a platéia, tendo a cena filmada por baixo. Maria chegou a empurrar a cadeira, querendo se proteger...
25/05/93

Estas reminiscências do cinema mudo, anteriores aos anos 30, pertencem à época em que Uchoa ainda se chamava Ignácio Uchoa.
No avanço da Estrada de Ferro Araraquara (ou Araquarense), os engenheiros da Estrada, ou homens ilustres, eram homenageados com seu nomes nas estações de parada dos trens. Assim, o Dr Ignácio Uchoa, engenheiro da ferrovia, foi distinguido. Nos inícios da década de 30, ficamos só com o Uchoa, como é até hoje.
26/05/93

Ainda outra vez, cinema. Todos os domingos, ás 14h, havia matinê e, sempre, filmes de "vaqueiros". Charles Starret, um deles, era chamado de "empregado do cinema", porque todo domingo lá estava ele dominando a tela com seu chapéu branco, o rosto bonito de "mocinho". Havia também Gene Autry, cantor e tocador de viola. Aliás, eu me lembro que esteve em visita a São Paulo, naqueles tempos. Década de 40, creio. Roy Rogers, também visitou o Brasil. Numa entrevista a jornais paulistas propôs esta mensagem às crianças: "Jamais esqueçam o caminho da escola, da casa, da igreja". Essa pedagogia do "herói" deveria ser bem aplicada na educação dos jovens, pois na alma juvenil e digo infantil, dada a precocidade de muitos, hoje, a vocação por seus ídolos é patente e quase irresistível.

Algo a lembrar - naquele tempo não havia o sistema de filas. Era um horror comprar ingressos. Pode-se imaginar o ajuntamento na bilheteria e a vitória dos mais ousados...ou atrevidos. As filas surgiram na época da guerra (de 39 a 45), quando os racionamentos se impuseram, submetendo a população a essa forma de disciplina democrática. E foi bom, de certa forma, para educar alguns...

4ª frase -
A frase incisiva do Lula revela a ansiedade que dava em nós, crianças, quando uma visita inoportuna viria atrapalhar o horário do cinema. O horário era marcado por três sinais de sirene, ou sereia, como chamávamos.
Nessa noite (da frase), D. Maria do "Seu" Secundino, veio fazer uma visita, como era de costume. Logo à chegada, 1ª sereia. Quando tocou a 2ª, o Lula avisou a mamãe, aflito. E D. Maria: "É cedo ainda." A resposta veio pronta: "Cedo?! Quando chegaram já era tarde!"
Não me lembro se o encabulamento da mamãe valeu para alguma coisa. O certo é que criança enfrenta o real com mais desembaraço. E a 3ª sereia era uma realidade cruciante...

5ª frase -
O capítulo da Revolução de 32 será o seguinte. Quero me deter nele com fidelidade e boa memória, dada a questão histórica.
14/08/93


Voltar
Pousada Recanto Fazendinha - Estrada Municipal Santa Cruz do Rio Abaixo - Km 7,3 - São Luiz do Paraitinga