Revolução de 1932

A 9 de julho de 1932 estoura a Revolução Constitucionalista em São Paulo e, a 16 (ou 19?) de julho, parte de Uchoa o Batalhão da Alta Araraquarense.
Uchoa detém esse marco, o de ter reunido ali os voluntários da região sob o comando do Capitão Elpídio Silveira (catarinense, prefeito nomeado para a cidade e chefe das forças de ocupação getulista, de 30, quando da vitória de Getúlio), um adventício, sem raiz nenhuma local.
Eu me lembro do temor da mamãe, advertindo o papai que não poderia confiar nele. Como um homem do Getúlio poderia lutar contra o mesmo? Ainda mais que o capitão Elpídio e o papai estavam de relações estremecidas por diferenças políticas. O certo é que a boa fé do papai e o seu ideal acalmaram os receios da mamãe. Ou quem sabe a boa fala do capitão? O certo é que papai, delegado para a missão, arregimentou o Batalhão da Alta Araraguarense.
Pela manhã do dia 16 (ou 19), desfilou pela cidade, com bandeiras e muito entusiasmo, acompanhado pela população, dirigindo-se para a estação da estrada de fero, onde embarcou em trem especial. A gente, criança, não compreendia o alcance da situação. Era festa para nós, arrebatados por uma euforia de ser paulista e brasileiro, a um tempo só. Defender o Brasil, defendendo São Paulo.
Eu me lembro do meu irmão Acyr, chorando, querendo seguir com papai e este dizendo, para o consolar que ia só até Araraquara. Acyr tinha só 14 anos. Quando se diz que São Paulo se ergueu num só corpo, numa só alma, é a pura verdade.
Acontece que nem tudo ocorreu como se esperava. As forças federais pressionaram e o receio da mamãe se confirmou: no setor de Mococa, onde o nosso Batalhão se colocou, o cap. Elpídio bandeou-se para o lado dos mineiros, federais, sob o comando do general Manuel Rabello. E os nossos? Correram para ficar sob a direção do capitão, corrijo, coronel Herculano de Carvalho, e não se desnortearam
Em Uchoa, porém, chegou a notícia de que o papai tinha desertado e foi objeto de comentário na Casa do Soldado. Esta funcionava como uma cantina, ou quermesse de recinto fechado, para arrecadar fundos e acolher prováveis soldados que passassem por ali, indo ou vindo do front. Na verdade, era mais lugar de "recreação" porque Uchoa não foi zona de operações.
Cada dia era dirigido por uma senhora, com sua família; o domingo era da mamãe. Quando ela soube dos comentários sobre o papai, mandou dizer à comissão que não contassem mais com ela: "A Casa do Soldado não é mais para beneficiar a Revolução, mas para diminuir os que tiveram a coragem de ir lutar, não como os outros que ficaram por aqui, por falta dessa coragem."
Mamãe não pôs mais os pés lá e nos proibiu de ir também.
Na 2ª feira seguinte ao domingo em que não compareceu na Casa do Soldado, uma comissão de senhoras foi até lá em casa, e mamãe as recebeu na sala de visitas. Eram D. Lourdes, professora do Grupo Escolar, esposa do Prof. Tertuliano Soares Albergaria, gerente do Banco de São Paulo na época, e de onde o papai havia retirado 6 contos de réis e entregue ao "seu" João Birolli, para atender ao que nós precisássemos (João Birolli era mais confiável e seguro que um banco em tempo de revolução); D. Maria Birolli, esposa de "seu" João; não me lembro das demais. O certo é que a atitude de calma e altivez com que a mamãe defendeu o esposo, soldado voluntário e idealista, deve ter calado no espírito das visitantes. Não me lembro de ter havido alteração de vozes, só a conversa respeitosa e digna. E quando veio a primeira carta do papai e veio dirigida a mim, talvez para evidenciar a constância e serenidade dos objetivos que o levaram ao front, foi uma alegria só. Junto, o retrato do papai fardado, com o filho do cel. Herculano. Do capitão Elpídio, nunca mais ouvi falar.
16/08/93

Havia o Correio Militar dos revolucionários. Pena que a gente não se lembrou de guardar modelo do mesmo. Porque recebemos cartas do papai no front.
18/08/93

Lembro-me de que no dia em que o Batalhão da Alta Araraquarense partiu de Uchoa (Ignácio Uchoa na época), surgiram notícias na cidade praticamente desguarnecida de defesa. Não sei como surgiu o boato que haveria uma invasão de leprosos vindos de não sei onde. Cada família se recolheu em casa, de portas fechadas, o que era uma anomalia no viver cotidiano. E as entradas da cidade eram guardadas por grupos de homens escalados, num rodízio de vigílias. Quais sentinelas, tais cidadãos permaneceram nessa tarefa até o fim da Revolução. E nunca soube que algo de anormal pudesse ter perturbado a rotina dessa guarda "miliciana civil". Como acendiam uma fogueira para se aquecerem, pois era inverno, muita conversa deve ter rolado "ao pé do fogo"... É bom lembrar que a revolução de 32 foi de julho a setembro, perto de 3 meses.
09/10/93

No período da Revolução, a brincadeira maior dos meninos era brincar de guerra. Formavam batalhões e marchavam na rua de suas casas, ao som de tambores de lata feitos por eles. Um comandava e os outros obedeciam. Era esta suas imagem da revolução, uma imagem épica de avançar sobre o inimigo. Deve ser esta imagem que leva os jovens às campanhas, das quais não poucos são a moeda do tributo.

Uchoa não teve o seu herói morto. Cedral, vizinha , o teve na pessoa do moço Carmo Turano, irmão do Salvador Turano, já este residente em Uchoa. Terminada a revolução e acalmados os ânimos, uma delegação do Batalhão da Alta Araraquarense foi Mococa, onde tombara o soldado constitucionalista, e de lá trouxe os seus restos mortais. Os uchoenses, em peso, foram à entrada da cidade, na estrada que ligava a Catanduva, atrás da chácara do Custódio), não como hoje. Foram esperar o que havia sido mártir por servir a seu ideal (e foi comovente o encontro da caravana, empoeirada pelo chão das estradas sem asfalto daquele tempo, com o povo das cidades). _ Em Uchoa se repetia o que já sucedera no decorrer no decorrer da caminhada de "retorno" do herói. Eu me lembro do papai, de pé no paralama do carro aberto que trazia o corpo, com o olhar cansado da viagem, o cabelo coberto de pó. E ainda seguiria viagem até Cedral, uns 20km. Só quem viveu "32" poderá entender ou descrever o pulsar deste período da História do povo paulista.

Mamãe era muito amiga de uma irmã do Carmo Turano (ou D.Isolina, não tenho certeza), casada com o Sr. Antônio dos Santos Galante, de Cedral, e companheiro político do papai, do Partido Democrático.

Além disso, era em casa de D. Maria Garisto, casada com o Sr. Vicente Garisto, que se ia ouvir as notícias da revolução pelo rádio. D. Maria também era irmã de D. Isolina (?) e, portanto, do Carmo.

Enquanto os adultos se reuniam à volta do rádio (Rádio Record; locutor, César Ladeira, que foi casado com Renata Fronzi), nós as crianças, ficávamos na varanda conversando ou brincando. O mundo girava e a gente nem tomava conhecimento. O futuro se encarrega de germinar as sementes, que são lançadas através do tempo.

_ Uma noite passou um caminhão cheio de soldados, voluntários talvez, e todos, crianças e grandes, os aclamamos com entusiasmo. De onde vinham? Para onde iam? Não sei. O certo é que uma força unia a todos, numa consciência acima dos indivíduos. E animar era preciso.
15/10/93

Era noite, umas 11h, mais ou menos, quando nos levantamos todos alvoroçados: o papai voltara da Revolução. Ficamos todos à volta dele ouvindo como saltara do trem na curva do Osório Moreira, um amigo da família que tinha sua chácara à margem da estrada de ferro. Como na estação havia soldados da ditadura aguardando os paulistas que regressavam à casa, o maquinista da E.F.A. parava o trem nessa curva para o pessoal descer e escapar ileso. O papai veio com traje civil, com um terno emprestado de um irmão do João do Chicão, o Ariovaldo (?) de Carvalho, um dos fundadores da Drogaria S. Paulo. Depois houve a troca do terno pelo uniforme de campanha, cada um a seu dono. Ai, se o soldado voltasse fardado! A Ilha das Flores, R.J. Já o estaria esperando. O Pedrinho da tia Mariquinha, aprisionado pelas tropas mineiras no setor de Eleutério (creio), foi para essa tal ilha, de onde voltou após dois ou três meses além de setembro de 32, mês da nossa rendição. O papai voltou logo em seguida ao término, graças aos amigos em S.Paulo e, com muita sorte, dele e dos outros que conseguiram chegar.

Uns fazem amigos na iniqüidade; outros na tribulação. Neste último caso, papai conseguiu boas amizades, as quais cultivou, como a do Dr. João de Noronha Goyos, de Mococa (?) e que abriu escritório de advocacia em Rio Preto (hoje S.J.R.P.). Toda sexta-feira o Dr Goyos atendia clientes, arrumados pelo papai, na redação de "O Direito". Amizade que nasceu no front e se consolidou no cotidiano. Os fatos buscam os fios e o tempo se incumbe de tecê-los.
20/11/93


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