A imprensa séria - "O Direito"

Antes do Dr. Goyos, quem freqüentava às 6ª feiras a redação do jornal, no encontro com prováveis clientes, era o Dr. Farard Raposo, o do fórum de Rio Preto. Depois do Dr. Goyos um novo advogado: o Dr. Carlos Foot Guimarães (irmão do locutor da Rádio Nacional, do Rio de Janeiro - Celso Foot Guimarães, renomado na época). O certo é que o papai, esclarecido e diligente, preparava papéis dos clientes, tudo pronto para o advogado assinar e tomar as providências de efeito. Há atividades que o jornal propiciava. Em torno dele giravam os fatos, as pessoas, os relacionamentos políticos e sociais, não só de Uchoa, mas da região também. Se a escola era pequena, mesmo assim não deixava de existir. Um raio que ia crescendo conforme se expandisse o universo da circunferência...
Taubaté 18/12/93

- Se Deus escreve direito por linhas tortas-, Uchoa teve sua imprensa muito bem expressa - "O Direito" e "O Torto".
"O Direito" era o jornal sério, fundado em 1927, tendo como seu fundador meu pai, José Baptista de Carvalho, mineiro de Pouso Alto, paulista de coração, uchoense de alma.
Desde os tempos de Ignácio Uchoa (1927) até Uchoa (1940 ou 39?), religiosamente aos domingos, editou-se "O Direito", de linha confessionalmente liberal, democrática. "Órgão dedicado aos interesses do povo" - lia-se no cabeçalho do título. Era independente de opinião, defendido pelo seu redator com uma coragem leonina em tempos de oligarquia perrepista (do PRP - Partido Republicano Paulista, no governo desde 1889 até 1930, quando se iniciou o mando getulista (ditadura até 1945). Os tentáculos do Dip (Departamento de Imprensa e Propaganda, do governo do Getúlio) chegaram até o "O Direito" proibindo-o de continuar uma campanha, certa vez. Não me lembro a quem molestava, mas havia a mordaça da censura.
Papai escrevia o editorial, o artigo de fundo; contudo na coluna "Sociais", suas crônicas românticas levavam o pseudônimo Trevo. Às vezes, e muitas, Avelino Silveira, o Bim, era ótimo colaborador, culto, inteligente, expressivo, ousado. Correspondia-se com Monteiro Lobato, feroz inimigo da Ditadura. Bim sabia endereçar suas linhas, ao sabor do leitor atento, onde refletia sobre situações e pessoas, na ironia fina do cotidiano. Houve ocasião em foi preciso salvar o espaço editorial, pois uma contingência fizera o redator faltar. Então, o Acyr (meu irmão e gerente) ou eu, escrevíamos algo, assinando sempre De Carvalho, os dois.
07/01/94

De Carvalho era Acyr, ou eu. Sob a camuflagem, não sei se os leitores do jornal percebiam a autoria, mas o Bim, sim. Uma vez surpreendeu-me perguntando porque eu me desviara do início do artigo: começara lembrando Sparkenbroke e terminava em patriota...Só assim eu percebi que o estilo é o homem (ou a mulher), como dizia Machado de Assis.
O exemplar de "O Direito" (47cm X 33cm) era o noticioso da cidade e da região, refletindo fatos da época. Por exemplo, nº 783, de 07/02/43; olhemos:
_ "Ele vai à falência!", de Avelino Silveira, onde o autor, depois de uma digressão irônica a respeito da Vida (e da vida mal vivida de muitos) se justifica, em tempo, da escolha do título, em artigo de fundo, onde não há nenhuma relação a respeito. Como "falência" é sinônimo de desgraça alheia e gera curiosidade, usou-a como isca do leitor...
11/01/94

_ A 2ª Guerra Mundial grassava perturbadora sobre os povos: "Países que lutam pela liberdade", noticiava o mesmo exemplar: Albânia, África do Sul, Austrália, Bélgica, Brasil, Canadá, Checoslovaquia, Chile, China, Costa Rica, Cuba, República Dominicana, Estados Unidos, Etiópia, França Livre, Grécia, Guatemala, Haiti, Holanda, Honduras, Inglaterra, Índia, Luxemburgo, México, Nicarágua, Noruega, Polônia, São Salvador, Iugoslávia, Nova Zelândia.
(Que coincidência! Estou relendo o que se dizia aos tempos de 1943, num jornal do interior brasileiro, paulista, há exatos 51 anos, meio século...)
_ Há um artigo assinado, por Raymond Quisrcery, um provável correspondente estrangeiro das agências (Press Information, por ex.) que enviavam notícias para os jornais, em que situa a expectativa e a probabilidade de Hitler estar armando sua defesa contra a invasão da Europa pelas tropas aliadas. No decorrer das linhas o curioso é observar o lado histórico das invasões da Europa pelo Mediterrâneo, de suposto fácil acesso. Hitler não viu o óbvio: o canal da Mancha. Ou não quis acreditar que o perigo viria pelo "seu quintal"...
_ Álvaro Moreyra, pelo seu "Os poetas e os críticos", depois de passar pelos versos de Wal Whitman saudando "Benvindo sejas, irmão brasileiro - teu amplo lugar está pronto!"...chega a Edson, o mago da luz; a Santos Dumont, o mago do Espaço; e o diz como poetas, como estrelas unindo os homens,. Por causa dos "críticos" veio o "blackout", e as asas espalhando a morte. Brada no final: - "Tira a pena Mussolini, 1943! Tira o pincel de Hitler!"
_ "A rua velha da Cafundópolis" é a crônica, ou conto, de Acyr de Carvalho, satiriza a velha mania de pôr nome de rua para homenagear velhos "coronéis", ricos e no poder. É saborosa a linguagem para quem viveu numa cidade como Uchoa que, naturalmente, teve o seu "Caminho Velho", "afastado o mataréu", transformado em avenida margeada de árvores e principal da cidade. E a essa avenida sucederam-se os nomes, todos eles de caráter estrangeiros, emigrantes bem sucedidos...(Ah! Brasil, Brasil! Quanta ingratidão contra você!).
_ Para a face amena do jornal em tempos de guerra, o Folhetim de "O Direito": _ A Bandeira dos corsários, de John Murray Eynids, em capítulo semanal. Pode-se avaliar a ansiedade de um apaixonado pelo gênero.
_ Entre os anúncios comerciais, editais, etc . Há um da Empresa de Eletricidade Rio Preto S/A, avaliando seus postes, fios e maquinismos em milhares de contos de réis . Uma fortuna!
_ Da Sociedade traz: Quadra; Pensamentos de Alfred de Musset; crônica de trevo (sempre o perfil de alguém), aniversários, os que viajam; cinema.
_Para a mulher - Palavra às mulheres, onde o médico francês Chavasse aconselha as mães a tornarem seus filhos alegres desde o berço. Um riso alegre de criança é a melhor das músicas.
_ Há a coluna do futebol, como não poderia faltar, com a vitória do "(ilegível) Clube" sobre o "Lusitano F.C." de Rio Preto, de 6 x 0.
_ Cachorro perdido, de nome Titio; gratificação prometida.
_ Burro morto por um raio... e logo abaixo, para tristeza de seu dono.
_ Para terminar este meu painel desengonçado da variedade de matérias que um único exemplar sabia apresentar, bem paginado e impresso, vou encerrar com o artigo indagador: "Existe petróleo no município?" Explica-se em 1929, na fazenda do sr. Umberto Bertelli, no bairro da Aroeira, ao abrir-se um poço verificou-se a água não potável com veios de óleo cheirando a querosene. Em 1943, o caso veio à baila pela carestia de gasolina, pela guerra. Daí...
07/02/94

Notei outra coincidência relativa ao jornal do dia 7 de fevereiro: é aniversário do Renatinho, meu neto - sério candidato à carreira de jornalista, como foi seu bisavô, José Baptista de Carvalho, meu pai.
Eu percebo no Renatinho, pelo seu dinâmico interesse e conhecimento de política e questões sociais, o “fogo sagrado” que alimenta uma vocação. O jornal é o arauto da sociedade, do povo, da nação. E muito me orgulha uma frase de meu pai, proclamada em carta aberta (no jornal), a quem decerto provocara esta definição:
_ "Se com dignidade tenho vivido, com dignidade hei de vencer!"
Eu era muito moça para guardar os motivos, mas a frase me ficou como característica de vida, um lema a seguir sempre.
E é esta cabeça erguida que manterá firme o passo quando os tropeços quiserem abalar a caminhada. Lição de um velho jornalista do interior, de quando o sertão começou a se guiar e a conhecer que o direito também é força, abrandando a truculência dos que se achavam donos do mundo (e da política).

10/02/94


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