Ainda a imprensa

Jornal tem muito prestígio no interior, em qualquer lugar, eu creio. Que fascinação ver o nome estampado numa página da imprensa! Visitas à redação eram obrigatórias, fossem os motivos os mais variados: circo, teatro, promoções sociais, etc, etc. Pessoas ou profissionais novos na cidade apresentavam-se visitando o jornal. "Permanentes" em cinema, circo, teatro, eram bonificações que o redator do jornal sempre recebia.
Haja vista o camarote que papai recebeu do Circo Teatro Romano, onde o palhaço Dom Pedrito dominava as noites de ótimo espetáculo. Nesse circo havia o famoso Globo da Morte, com o motociclista Guido e dois comparsas que desafiavam o perigo e assombravam a nossa expectação juvenil.
Não havia acontecimento na cidade em que o jornal não ficasse ciente, ou dele participasse.
Devo registrar aqui o jantar que a família do Adib Gattaz ofereceu ao primo escritor Jamil Almansur Haddad, no qual os estranhos eram o Avelino Silveira (Bim), o papai e eu. Só nós; e a gente vivia aquilo como fato costumeiro. Pelo menos, Uchoa devia dar uma amostra de sua intelectualidade, modesta embora. Pelo menos, a pena era instrumento de trabalho a ser considerado.
O assunto continua jornal. Quero registrar aqui o nome do papai aos primórdios da imprensa em Tanabi, cidade adiante de Rio Preto, à qual não se chega por estrada de ferro, só por rodovia. O Jefferson, meu irmão possui um livro sobre a história de Tanabi, e nele consta o nome do papai como o fundador do primeiro jornal da cidade: "O Município". Amigo político do Coronel Militão, de Tanabi, papai dirigia o jornal a pedido do mesmo. Eu era bem menina, mas lembro-me de ter visto e lido "O Município" de Tanabi. Papai devia editá-lo à distância e, acredito, só à época da fundação. Naquele tempo, além de Rio Preto, era "boca de sertão" e esta, perigosa.
Uma nota: - Jamil Almansur Haddad, poeta de "Orações Negras", volume que me foi oferecido por Farid Gattaz, que era casado com a escritora Helena Silveira, pertencente ao clã de escritores da mesma família, Silveira. O maior: Valdomiro Silveira.
09/03/94

A voz do jornal nem sempre se espalha no deserto. Tem poder de clamor porque fala pelo povo. Assim, quando a Estrada de Ferro Araraquara (E.F.A.) reformou a estação de Uchoa, isolando a plataforma e criando uma sala de espera, colocou um portão de madeira para separá-las. "O Direito" protestou, endereçando um pedido aberto à direção da E.F.A. que substituísse o referido portão por um de ferro, mais elegante e condizente com o merecimento da população. Reforçava-se o pedido dado já que a via férrea era de movimento diário e intenso, e merecia, por isso, consideração por parte da sua administração.
A resposta veio breve: o portão foi trocado segundo "O Direito" solicitara que não se esqueceu de dar a nota do agradecimento. Teriam outras falhas sido sanadas em cidades que não possuíam o alerta de um jornal?
Este fato, corriqueiro, embora, só pôde existir porque o jornalista precisa ser, acima de tudo, fiel a suas convicções e descobrir no cotidiano o valor das coisas pequenas - alicerce do que poderá crescer e envolver-se no mundo, um mundo cada vez maior, interligado, complexo.
Uchoa teve outro jornal, do Partido Republicano Paulista (P.R.P.) a "Gazeta de Uchoa", sob a direção e redação do Prof. José Augusto Fessel, diretor do Grupo Escolar. Foi de vida curta, pois o Prof. Fessel removeu-se para São Simão, de onde enviou um postal da cidade para o papai. Daí se vê que não alimentava rivalidade com "O Direito", propriedade de quem sempre militou contra o perrepismo, partilhando com o Partido Democrata (P.D.).
Com a fugacidade da "Gazeta", sua tipografia veio aumentar o acervo material d' "O Direito", numa transação amigável entre o papai e o Sr. João Birolli, do P.R.P.
Quero registrar aqui, voltando à Revolução de 32, que o nome do papai consta como delegado para organizar as bases do movimento na Alta Araraquararense, sediado em Uchoa. É citado no livro documentário, comemorativo dos 50 anos da Revolução, feito por Hernani Donato, à página....
11/03/94


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