Só você pode conversar com o Sílvio Santos

Ele, um jovem funcionário da empresa de energia elétrica. Bonito, cordial, educado. Ela, uma senhora que precisava de uma segunda via de fatura. Pediu o que precisava e procurava assunto. O rapaz ouviu, sorriu, procurou dar atenção, apesar da fila, que o preocupava. A senhora despediu-se, feliz, mais pela atenção do que pela segunda via, é claro. Há quanto tempo não encontrava um jovem tão educado e atencioso!
A história parecia ter acabado. Para ele, simplesmente um atendimento e uma gentileza com uma senhora que parecia precisar de atenção.
Dias depois, ela volta. Aguarda a vez. Ao ser chamada, abre uma enorme bolsa, despeja seu conteúdo sobre a mesa e, surpreendentemente, diz: "-Só você pode conversar com o Sílvio Santos". O rapaz, atônito, olha para o volume sobre a mesa: dezenas de carnês do Baú da Felicidade pagos e inclusive, com o troco dentro, pelo seu cálculo, por volta de R$ 600,00. A velhinha, mostrando os carnês, diz que ele precisava ir falar com o Sílvio Santos porque, mesmo tendo pago tudo aquilo, ele ainda não havia dado a ela a casa prometida. Procurando palavras, o rapaz explica que não era assim que funcionava, que era por um sorteio, e também que ele não tinha meios de conversar com o empresário. Diz também que ela não deveria andar com aquele dinheiro e sim, guardá-lo.
A mulher insistia que ele era o único que podia resolver e que não costumava andar com aquilo, que trouxera apenas para que ele visse que ela já fazia jus à casa.
A fila de espera aumentava. Sob o olhar de censura dos clientes que aguardavam a vez, entre impacientes e admirados com o material sobre a mesa de atendimento, o funcionário tentava convencer a senhora a guardar seus carnês e esperar pelo sorteio. Esta, por sua vez, dizia que já não podia esperar, pois tinha idade, já tinha pago muitos anos e morava com o filho e a nora e não se sentia feliz, precisava da própria casa e insistia: "-Só você pode conversar com o Sílvio Santos!"
Aquele podia ter sido um dia comum de trabalho. Rotineiro e igual, como muitos antes e muitos que viriam depois. Mas, por ter sido talvez, o melhor ouvinte da senhora, que só conseguia se comunicar com o Baú da Felicidade por meio de fiéis autenticações nos carnês, fora guindado a condição de único ser capaz de solucionar a injustiça de uma promessa não cumprida. E agora?
A casa não veio, nem a conversa com o Sílvio Santos, mas ela continua a vir. Entra na fila, sem segunda via a solicitar ou bolsa de carnês a exibir e aguarda a vez de ser atendida. Quando é chamada, senta, feliz, diante do rapaz bonito e educado só para saber como ele vai e dizer que ela está bem, também.
Ela espera a casa que não vem e pela vez de receber atenção. Ele não pode conversar com o Sílvio Santos, mas pode conversar com ela. E mais, recebê-la com um sorriso, respeitar suas carências e desejo de ser importante e atendida, independentemente de sorteio e pagamento em carnê.

Maria Inês, em 2004, a partir do relato de um fato real.


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