Clube Recreativo Harmonia

Reporto-me agora à vida social, ao Clube Recreativo Harmonia, da sociedade uchoense. Sei que o nome foi sugerido por meu pai, segundo ouvi na infância. Fundado por um grupo abnegado por sócios, teve como a primeira sede o prédio da antiga fábrica de macarrão. Os "macarroneiros", como eram chamados os italianos da pequena indústria, eram estabelecidos e moravam na esquina da Avenida 9 com a Rua 10, próximo ao Grupo Escolar, onde estudei. Não sei como se chama hoje a Avenida 9, a última, onde havia a máquina de benefício de café, arroz, dos irmãos Biselli, um deles o pai da Vilma do Jefi, minha cunhada. A Rua 10 deve ter outro nome, pois os tempos passaram. Era a que localizava o cinema, o jardim e o "footing", mais tarde. O Clube estava assim a uma quadra do Largo da Matriz, porque naquele tempo ainda não havia nem projeto de praça ou jardim. Cinema, sim. Está na minha lembrança o Salão do Clube, ainda meio esbranquiçado no chão curtido de tanto trigo que devia ter caído ali...cheirava até. Era o início, o primeiro passo para um futuro, para uma história contínua e só vitoriosa até hoje.
14/09/94

Não obstante o ambiente adaptado e precário, todos pareciam satisfeitos com a incipiente oportunidade de se reunirem para um lazer simples e quase ingênuo. Uma cena de que me lembro: examinando o anel de pedra verde, de grau em medicina, do Dr. Gercino D' Ávila, que chegou a ser prefeito em Uchoa, mineiro de Uberaba e muito amigo lá de casa, perguntei se era esmeralda. Ele confirmou; e eu lhe disse, na indiscreta simplicidade infantil. "O senhor não tem medo de que seja como as de Fernão Dias?" Por aí se vê que adultos e crianças compunham o mesmo paiol dos saltes da época, que eram bem no estilo familiar.
16/09/94

Voltando ao Dr. Gercino D' Ávila. Ele era irmão do Sr. Sidney D' Ávila, advogado em Catanduva e político de grande prestígio. Salvo engano meu, chegou a ser deputado estadual e muito influente junto ao Dr. Adhemar de Barros, talvez ocupando uma Secretaria do Estado. O pai de ambos, Gercino e Sidney, era o Cel. Otaviano (parece-me este o seu nome) foi o fundador de Uberabinha, hoje Uberlândia, onde era sua fazenda. Uma ocasião esteve em Uchoa a passeio, e o conhecemos. Fomos a Águas de Ibirá com ele, ou melhor, conosco ele foi, porque a mamãe é que estava indo lá várias vezes, em estação de tratamento. Numa viagem a Ibirá, no carro, é que ele contava do seu patrimônio em Uberabinha destinado a fundação dessa cidade. Eis o que sei. Se não é "vero", o certo é que acreditei.
E deve ser a verdade, dadas as qualidades do Cel. D' Ávila (Coronel por ser fazendeiro e rico).

Foi com o Dr. Gercino que mamãe aprendeu a dar banho para abaixar a febre, ou compressas frias.

Dr. Gercino se apoiou muito na amizade do papai e foram companheiros políticos. Numa cidade de maioria estrangeira, imigrante, dada a época do apogeu do café, era confortante encontrar alguém do mesmo estado (Minas), do mesmo sentir brasileiro. Lá em casa ele encontrou a celebrada hospitalidade mineira, com os seus costumes e os seus valores; e os seus sabores.

E o Clube Recreativo Harmonia seguiu em frente. Da sede cheirando a trigo, algum tempo depois, não me lembro quando, mudou-se para a depois Prefeitura Municipal no Largo da Matriz. Ali ficou pouco tempo. De lá só me lembro do salão de jogos (peteco era um deles: encaixar fichas redondas em cavidades nos quatro cantos de uma pequena mesa, à maneira do bilhar; uma ficha maior ajudava a empurrar ou projetar as menores).

Depois, na sede onde ficou maior minha memória, na fase dourada até a mocidade: esquina da Avenida 3 com a Rua 4, que hoje têm outros nomes. Ainda farei um gráfico que elucidará melhor o traçado da cidade, expresso aqui neste caderno, onde me parece contar, oralmente narrando, não escrevendo, sem pretensão.

17/09/94


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