Carnaval no Clube

Dia da Árvore - Eu me lembro de uma vez que fui ao bairro de S. Miguel e, lá do alto, a vista verdejante da minha Uchoa. Não havia quintal sem pomar. O verde dominava as casas. Pode-se avaliar o ar oxigenado da cidade, para abafar a poeira das ruas sem calçamento daquela época, até os idos de 1946, quando nos mudamos de lá. O incrível é que, em minha mocidade, jamais vi os 2/4 restantes da praça ajardinados. Só 2/4 acolhiam os passantes com árvores, canteiros, bancos de granito. As ruas eram arborizadas, não sei explicar esse desinteresse pela então única praça da cidade, hoje completa.

Localização da segunda sede do clube: Rua 12, no meio do quarteirão entre as avenidas 5 e 7.
21/09/94

Voltando ao Clube Recreativo Harmonia, o da minha adolescência, juventude e mocidade, em sua 3ª sede, lembro-me de um baile de carnaval, acho que de 1932, ou 31, não tenho certeza. O prefeito era o Capitão Elpídio Silveira, catarinense, egresso das forças getulistas de 1930, que se apossaram da administração de todas as cidades do país. Uma verdadeira ocupação. Numa política de suposta inculturação, os militares procuraram ser simpáticos à
população da cidade ocupada, iniciando obras, promovendo eventos.

Assim, a metade da praça começou a ser ajardinada e deixou de ser apenas o Largo da Matriz, cujo eixo em diagonal eu e Alzira, minha prima, cruzávamos correndo, trançando as pernas em malabarismo infantil. (Como também descíamos e subíamos as escadarias da estação de trem, na maior disputa de velocidade. Quando não se escorregava pelo corrimão lateral...) Voltemos ao clube e ao carnaval. Os grandes se divertiam no salão de baile; os pequenos numa sala menor. Eu me lembro da mamãe, sempre zelosa, volta e meia na porta da sala das crianças, querendo ver a Ilmen (eu), fantasiada de japonesa de quimono e crisântemo de papel branco de cada lado da cabeça, sobre a orelha, como estava se comportando. Dava uma olhadinha e voltava para o salão.

Naturalmente, o baile recebia o apoio e o prestígio do Cap. Elpídio. Brasa dormida... assim é a política.

Um parêntese: referi-me à Alzira da tia Mariquinha. Foi minha grande companheira pelas andanças da minha memória. Foi protagonista de um fato que marca bem o espírito paulista até entre as crianças de 32. Quando acabou a revolução, São Paulo foi tomado pelas forças legalistas e os trens passavam com os soldados deixados nas cidades, forças de ocupação. Em cidade pequena a passagem do trem é sempre objeto de interesse. Assim, quando o trem parou na estação e os soldados se postaram, arrumados com metralhadora, ameaçadores, Alzira e a Emília Barbour, meninas, correram para ver o trem. Moravam perto e estavam sempre à escuta. Quando viram os soldados, não sabiam que eram inimigos.

Estes foram surpreendidos por um "Viva São Paulo!" e retrucaram com "Viva o Getúlio!" Elas perceberam o engano e voltaram correndo, gritando em desafio: "Viva São Paulo! Viva São Paulo!"

Lembrei-me disto agora.

Não sei se me referi a isso no capítulo Revolução. Fica o registro, com minha saudade da Alzira.

11/10/94


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