Bailes e brincadeiras dançantes no Clube

Voltemos ao clube e seus bailes: Baile Branco, Baile das Bolas, Festa Portuguesa, Festa Junina e Casamento Caipira, Baile de Chita, etc etc.

As "brincadeiras dançantes" eram a qualquer pretexto; as domingueiras, constantes. Os bailes com "jazz-bands", contratados, local ou de fora. As brincadeiras, ao som da eletrola que animava nossos ouvidos e os pés, é evidente, despejando Glenn Miller, com Chattanooga Choo Choo, Moonlight Serenade, quando não as valsas gravadas de Strauss. Paremos por aqui. Deixemos a memória bailar.
11/10/94

Que ritmos se dançavam? Valsa, Marchinha, Samba, Fox...
O cinema tinha sua influência e surgiram a rumba e a conga. Nesse tempo, final de 39 e início da década de 40, os musicais com cenários na Cuba do então Cel. Fulgêncio Batista, onde os Estados Unidos tinham vez e poder, eram freqüentes.
Daí a rumba, a conga. Nessa época, também, a política da Boa Vizinhança levou Carmen Miranda para Hollywood e a americanização do latino-americano. Zé Carioca com Walt Disney, empolgou. A vitória dos "aliados" fazia mais forte a caráter de cultura americana. Quando assisto a filmes da época, com os bailes de então, revejo o mesmo cenário em nosso clube, onde as damas se vestiam de modo semelhante, com os cavalheiros em terno social, na medida do possível, é evidente. Basta lembrar que uma sociedade de cidade pequena abriga todas as classes sociais, desde que o passado familiar lhes garanta a presença na agremiação. Não se estranhava a mão calosa de um provável cavalheiro, desqualificado apenas se não se comportasse como tal.

Iniciada a contradança, os rapazes corriam a convidar seus pares e nós tínhamos um recurso para fugir dos "indesejáveis": corríamos também para "toilette", cuja porta se abria para o salão. Dar "tábua" seria indelicado e assim... Terminada a contradança, os pares batiam palmas para o bis. Pode-se imaginar o suplício, se o par não fosse do agrado.

Ao final do bis, o rapaz levava a moça para o seu lugar, não sem agradecer-lhe, despedindo-se. Isto, se não fosse um par constante, como se dizia.

Um baile ia até a madrugada, 4h, por exemplo. No sossego da noite, voltava-se a pé, aos grupos, cansados, mas sem receios nem perigos. Hoje parece ser tudo tão diferente, não sei.

Eu ouvi, pela Rádio Nacional, do Rio, a despedida de Carmen Miranda, de mudança para os Estados Unidos. Junto com Orestes Barbosa, parece-me, ou Haroldo Barbosa, posso estar enganada, fez o show de despedida. Cantou sucessos, sempre expansiva e muito cativante.
O rádio ouvia-se; pela imaginação se via. Que riqueza!
25/10/94

Entre os ritmos em voga destacava-se o tango argentino, de passos difíceis, cadenciados. Cantar um tango era comum e não era raro, dançar o tango, porém, era tarefa que só os aficionados se aventuravam. Paulo Birolli, estudante de Direito em São Paulo, freqüentava escola de danças de salão na capital, era um dos arrojados bailarinos de tango.
Sabe que era um espetáculo ver dançar um tango?
Sempre havia meia dúzia de corajosos para a "arriscada empresa". A Dada , minha tia, era exímia nos passos e se saía muito bem como parceira.

Deixemos os ritmos e vamos à disciplina no clube. Certa vez um grupo pequeno de rapazes se desentendeu no interior do clube e foi penalizado com 3 meses de suspensão na freqüência. Como se vê, a diretoria soube dar a pena. Numa cidade pequena, do interior, o clube é espécie de alma viva. É o ponto de encontro, o centro de eventos. Pode-se calcular a tristeza dos "condenados ao ostracismo". Cumpriram o prazo, voltaram a freqüentar, tudo bem. Na verdade, Uchoa, através do Harmonia, era uma grande família.

Por fim, o clube mudou-se para a praça central da cidade, na esquina da rua 6 com a Av. 5, onde permanece até hoje, parece-me. Ali tinha sido a casa comercial e a residência do Sr. Fidelis Esteves, casado com D. Hermógenes, pais da Nair, minha amiga. Na inauguração houve um baile para o qual se convidou a sociedade das cidades vizinhas.
Tive a honrosa incumbência de falar pela mocidade uchoense, saudando a mocidade que nos visitava e que abrilhantava a bem esperada nova sede do clube, na sua festa de abertura de novos salões. Bons tempos! Ser ingênuo ainda era bom e alegrava o coração.

Dentre os bailes à caráter, destacou-se o baile à portuguesa. As moças, com traje típico, os moços, também. Fazíamos grupo de 4 para dançar o Vira; meu par foi o Otávio da tia Mariquinha, meu irmão Acyr com a Arlette. Eu disse moços e moças, mas nessa época eu era mocinha ainda. Generalizei para facilitar. Quem nos ensaiou para as danças? Foi o pessoal da turma de conserva da estrada de ferro. Portugueses genuínos, se prestaram a esse favor. Tinham as mãos tão calejadas que a Dada comparou a ralos; mas um deles era tão bonito que a própria Dada, muito generosa, o comparou com Charles Farrell, ator de cinema famoso, galã da Janet Gaynor, em "Sétimo Céu". O bom da festa eram os ensaios; divertia-se muito. Um filme português, "A Severa", sensação do momento, foi o grande inspirador desse baile. Suas canções, os motivos musicais. Quando eu disse que a imaginação era nossa grande riqueza, era mesmo! Da tela, para a vida.

31/10/94

Aos domingos frequentava-se o clube à tarde, também. Jogava-se pingue-pongue, formavam-se grupinhos de conversa. Ou se aproveitava a ocasião para cultivar os "flirts" do momento. Tenho cativa a memória na 3ª sede, fazendo vis-a-vis com a casa que foi do meu avô José Avelino de Mello, esquina da R. 4 com a Av. 3. O domingo era dia longo e calmo. Precisávamos preenchê-lo. Uchoa era pequena acanhada cidade do interior? Talvez para os que não sabiam como era bom procurar a alegria e o interesse de viver na jovialidade do convívio social. O Harmonia, de sede adaptada, sem luxo nem ostentação, tinha esse condão. Pairava ali a "consciência coletiva" do companheirismo e do bem comum.

Para situar a época - décadas de 30 e (meados) de 40. Basta lembrar que dos 19 aos 25 anos, eu vivi em tempos da 2ª Guerra Mundial (1939- 1945). Eram dias ligados às operações bélicas, ditando até a moda, segurando a economia. O mundo ocidental era seu só, servindo ao espírito dos aliados. Por isso, havia sobriedade nos hábitos de comer e vestir, com racionamento de gasolina, açúcar, óleo, trigo. Daí, talvez, a pouca exigência para se divertir: "footing" no jardim, cinema aos domingos, brincadeiras e bailes no clube, onde o importante era dançar.
04/11/94


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