Paixão pela leitura

Ler era a nossa paixão - minha, do meu irmão Acyr, de muita gente daquela época. O cinema, o rádio, os jornais, traziam mensagens, manchetes, notícias do momento e de curiosidade. Os livros, porém, nos transportavam a mundos onde a imaginação estaria à solta e livre para se expandir e se fortalecer. Como porém, ter os livros? Na cidade nem sempre houve livraria, a não ser a incipiente do Bazar Sta. Gema, do Ovídio Bernardes Corrêa, casado com Marciana, filha do Sr. Osório Moreira. Havia, contudo, Rio Preto, sede da comarca, cidade grande e próxima, com vários trens diários da E.F.A. - Estrada de Ferro Araraquarense, e bem servida de livrarias. E Catanduva, também. Note-se que Uchoa fica em posição estratégica, à meia distância das duas cidades. Quando não se comprava, emprestavam-se os livros. Havia prazer nisso para a troca posterior de comentários. O interessante é que os livros eram sempre aceitos, como "tudo que cai na água é peixe", sem distinção. Desde a "Coleção das Moças", a "Terramarear"; Érico Veríssimo, etc etc. O importante e quase essencial era ter um livro para se ler no domingo...

- Uma referência especial ao "revisteiro" da estrada-de-ferro. Era um senhor de cor, com o uniforme de ferroviário da E.F.A., que num dia da semana, parava em Uchoa para os seus fregueses de livros, revistas, almanaques anuais como o do "Tico-Tico", revista infantil, apreciadíssima. Portava uma pesada mochila (ou pasta de couro com correia e fivela), carregada de exemplares, da semana ou do mês, da "Vida Doméstica"; "Arte de Bordar"; "Cinearte"; a "Cena Muda"; "O Malho"; "A Cigarra"; de crítica política; "Fon-Fon", de variedades; alguns livros de ficção; enfim era a nossa livraria ambulante, de presença esperada e bem-vinda. Tenho bem viva sua expressão solícita de sempre dizer, em branco sorriso: "Sim, sinhô". Parecia "preto" de filmes do sul dos E.E.U.U.

Estou a pensar como certas pessoas nem podem avaliar o que significaram para outras. Haja vista o humilde "revisteiro", de uniforme, vendendo revistas e alguns livros numa cidadezinha do interior, perdida nas décadas de 30 e 40. Era o nosso mensageiro da cultura, o semeador em terra ansiosa.

Dr. Pedro Mastrocola era o feliz possuidor da coleção "Tesouro da Juventude". Idália, sua filha, era minha colega no 4º ano primário. Foi na casa dela que, após as aulas eu me introduzi no conhecimento dessa literatura. Era penoso, para mim, resistir às advertências da mamãe que não achava correto eu estar em casa alheia toda a tarde para ler. Mas se ler era a minha paixão?

14/02/1995


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