Devoções, terços, coroações dos paroquianos sem padre

Deixarei para depois o capítulo "Professores notáveis", pois é me grato referir-me ao mês de maio na Uchoa, ou melhor, Ignácio Uchoa de minha infância, na década de 20. Ficamos muito tempo sem padre na paróquia, cuja padroeira era Sta. Isabel, rainha de Portugal, a santa das rosas no avental. Houve um atrito, do qual ouvia falar, em que um espanhol, anarquista, não sei, anti-clerical, talvez, tentara alvejar o padre na igreja. Resultado: ficamos vários anos sem vigário. É forte a lembrança da Arinda, minha prima, puxando o terço nas rezas da tarde, ou melhor, da noite, na matriz. Alzira, irmã da Arinda, disputava comigo tocar a sineta no final de cada dezena. E o "Ora pronobis" da ladainha ainda me ressoa sibilante na voz provocativa do Armando Pinto, da idade do Acyr... O Armindo era filho da D. Maria Pinto, portuguesa, que perguntou à Nega, minha prima:

- Sabes fazer crochê?
- Não, respondeu a Nega.
- Então, que vai fazer ao ficares velha?
- Vou passear, retrucou gaiatamente a Nega, da tia Maria.
Pois bem, retornemos à estrada principal, fugindo dos atalhos:
Naquele tempo, as tardes de maio eram frias, plúmbeas. O mês inteiro festejava-se a Virgem Maria. Toda noite, antes da reza do terço, as meninas em fila dupla, vestidas de branco e véu na cabeça carregando ramalhetes, preferência pelos "monsenhores" brancos, entravam cantando.

"Neste mês de alegria,
Tão lindo mês de flores,
Queremos de Maria
Celebrar os louvores."

E depositavam no altar a oferenda florida a Nossa Senhora.
Aos sábados e domingos, a maioria se vestia de anjo, de vestes brancas, rosas, azuis, para o coração. Havia escadas laterais ao altar por onde as meninas subiam, cantando sempre no ato da coroação de Nossa Senhora:

"Recebei, ó Maria,
esta coroa de flores,
e cantemos à porfia
os vossos louvores!"

"O' Maria toda pura,
toda bela e todo amor,
quero amar-vos com ternura,
quero amar-vos com amor!"

Ou então:

"Aceitai esta coroa,
Virgem por Deus escolhida,
Que nos seja, ó Maria,
O penhor da eterna vida!"

A igreja resplandecia e regurgitava de fiéis, as famílias, a maioria, se representavam ali nas crianças imitando o coro dos anjos. É uma linda lembrança de pureza e ingenuidade.
Como eram os vestidos de anjo? De shantung ou cetim; o meu primeiro era de cetim branco, com estrelas de cartolina pintada de purpurina prateada e colocadas no tecido, espalhadas como estrelas. A coroa, também de cartolina prateada com purpurina, encimava a fronte de cabelos encaracolados pela ação de papelotes. Estes eram uma tortura porque eram feitos de tira de pano, fortemente amarrados. Nem se podia rir porque doía a raiz dos cabelos. O Otávio da tia Mariquinha provocava, à Alzira e a mim, fazendo caretas de dor. Mas, vai lá: o importante era estar com o cabelo bem crespo na hora de vestir de anjo, colocar a coroa. Assim se usava.

E as asas eram feitas de papel crepon recortado como penas, preenchendo a armação em forma de asas. Mamãe era habilidosa nisso. Ela preparava todo o meu traje de anjo e acho que nunca fiz feio. Pelo menos, era a minha voz que enchia a igreja com os louvores a Nossa Senhora, na sua coroação. Se eu não tivesse certeza de que estava bem vestida como anjo, não teria a alegria de entoar bem alto a nossa devoção à Mãe de Deus e nossa.

Mês de maio mês de Maria. Foi tudo isso que me veio à memória quando via as margaridinhas brancas e amarelas desabrocharem no jardim do quintal, oferecidas tão gentilmente, há um ano pela Maristela, amiga da minha neta Raquel.
Nem tudo são flores, porém, A Mirtes Vega que o diga, quando teve os cabelos pegando fogo ao subir nas escadas do altar. Ramona Barsalobre, nossa colega, também vestida de anjo, tocou uma vela do altar com a sua asa de papel que se incendiou. Como a Mirtes subia atrás, o fogo pegou nos seus cabelos. Sorte que o Sr. Germano Vega, pai da Mirtes, com um pesado sobretudo no braço (era fria a noite), correu no altar e abafou o fogo. Foi um susto geral e ... histórico na agenda uchoense.


02/06/95


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