Anjinhos e pastorinhas: as procissões

As procissões povoaram a meninice, a adolescência, a juventude da Uchoa do meu tempo, quando não existia a bonita igreja de hoje. Nossa Matriz tinha a aparência de capela, com uma diferença: sua área era grande o bastante para abrigar a população de católicos da cidade. No seu interior, o coro ficava atrás, no alto, sobre a entrada. Havia um velho órgão, que ninguém tocava. O Coral era só de vozes, com gente de boa vontade com ou sem direção. Os cânticos, sempre os mesmos; se alguém aprendesse um diferente, teria o seu ensaio. Mês de maio, oferta de flores, coroação, terço, ladainha de Nossa Senhora; mês de junho, terço, novenas, ladainha do Coração de Jesus; mês de outubro, o Rosário; toda solenidade, bênção do Santíssimo, com Tantum ergo, Oração pela Pátria e pela Igreja; a igreja era o coração dos acontecimentos anuais, não faltando as quermesses e leilões.

Na Semana Santa, a Verônica cantava a tristeza litúrgica, acompanhada pelas 3 Marias, vestidas de preto, com véu; no Natal, as pastorinhas cantavam até o Presépio; nas procissões festivas saíam as imagens de Sta. Isabel, padroeira, além das de Maria, Coração de Jesus, S. José, ou de outros santos. (Santa Gemma era a santinha trazida, à nossa devoção pelo Cônego Santa Maria, um de nossos vigários, italiano.) Cada irmandade se esmerava no andor respectivo, desfilando com a fita de sua cor: azul, Filhas de Maria e Congregação Mariana, de rapazes; vermelha, Apostolado da Oração, senhoras zeladoras e associadas; rosa ou amarelo (São José ?), não me lembro, a Irmandade do Rosário.

16/06/95

(Interrompi a sequência anterior porque D. Cândida me chamou a fim de provar o vestido do casamento da Paula, minha neta. A prova estava impecável.)

Volto às procissões, cuja lembrança foi ativada porque acompanhei a de Corpus Christi, deste ano, com a Teresinha, minha enteada, para grande alegria minha.

Numa delas, a Alzira, a Norma Birolli e eu, saímos de Fé, Esperança e Caridade. Alzira, de vermelho, carregava um grande coração - Caridade; a Norma, de verde, portava uma âncora - Esperança; eu de branco, uma cruz - Fé. E anjos, muitos anjos, seguiam à frente do cortejo religioso, onde as crianças manifestavam em suas vestes significativas a religiosidade dos fiéis, em toda festa do calendário a se realizar.

Era costume, na Semana Santa, a procissão dos Passos e do Encontro, na 4ª feira de Trevas. Era na verdade uma Via Sacra pelas ruas da cidade. Cada família escolhida para sediar uma Estação preparava o seu altar, com o quadro respectivo ao passo da Via Sacra do Cristo. Ali a procissão parava, o padre fazia as orações próprias, o povo cantava "Estava a Mãe dolorosa ..., e toda a seqüência se fazia.

Na estação do Encontro, as imagens da Mãe Dolorosa e do Cristo condenado se encontravam, como no drama da Paixão. E seguiam juntos até a 14ª Estação, final, na igreja. E na Sexta-Feira Santa, a procissão do Enterro, com a devoção de todos os católicos. Era tal o clima que eu creio, atingiria até os que não o fossem. Eu me lembro que na Sexta-Feira até o Sábado de Aleluia, às 10h, o ar era de silêncio e pesar. Nós, as crianças, deixávamos de pular para não "pisar" sobre o corpo de Jesus enterrado...

Note bem o sentido universal da morte do Senhor, transferida para o nosso solo. Trégua de canto, e de briga, e de discussões com nomes feios, também era estatuída pelo consenso geral. O mundo ainda não havia sido liberado a pensar sozinho.

Pena que o pensar sozinho às vezes derrapa e faz um desvio para o desconhecimento.

Um fato esquisito se deu quando arrumávamos o altar para a IV Estação, lá em casa, Seria 1940? Não tenho certeza. Era de tardezinha, quase noite, quando um objeto luminoso passou cruzando o céu, por cima de nós, de leste a oeste. Estrela cadente? Meteoro? Tão próximo? Tão Luminoso? Sem explicação, para nós, até hoje. Só a lembrança do fato.

Párocos, do meu conhecimento: Pe. Pimenta, quase vítima do atentado referido atrás; foi para Tambaú, corrijo Tabatinga, de onde enviou um postal da igreja que ergueu lá. Endereçado ao papai, com palavras amigas, mereceu o comentário da mamãe: “-Está vendo? Essa igreja poderia ter sido feita aqui.”

Tivemos o Cônego Santa Maria, italiano, de humor precário. Pe. Pimenta era português; o Pe. Soares e o Pe. Paranhos eram brasileiros, que os sucederam. Este último era sociável, de bom relacionamento. Os seguintes, já não são meus contemporâneos.

A nova matriz, mesmo, foi construída após minha saída de Uchoa. Erguida em tempo recorde, soube pelos parentes da ação decisiva do João Cândido, gerente do então Banco Comercial, não dispensando Cr$1,00, se esta era a quantia que o fiel colaborador pudesse dar na lista de contribuição. Toda a cidade se fez presente. E isto é notável na história uchoense, revelando a efetividade de uma atitude comunitária. Belo exemplo!
19/06/95


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