Tudo que seu mestre mandar

Como se brincava? As meninas, de roda, de casinha, de teatrinho. Os meninos de pião, bolinha de gude, futebol. De pique, de esconde, de acusado, de pegador, ambos os sexos. Isso, quando crianças. Adolescentes, frequentava-se já as "brincadeiras" no clube; nos aniversários, "de casamento japonês", onde por admiração, o par era escolhido.
Lembro-me de umas cantigas de roda:

"Na mão direita
tem uma roseira
(bis) que dá flor na primavera
(refrão) Dolin, dolê, dolin, dolá,
toca viola prá nóis dança!

(note-se a fala popular e o uso do há pelo tem).
Cada menina pegava o seu par na roda e saíam todas, pares em fila, cantando o refrão.

Uma menina, sozinha, no centro da roda cantava:

-Eu sou uma viuvinha,
Dos campos d'além,
E quero casar-me
Não acho com quem."

A roda respondia em coro:

"Pois case comigo
Que eu sou o teu bem
Não há mais ninguém
Que lhe queira tão bem."

A "viuvinha" respondia, escolhendo o seu par, percorrendo a roda e apontando a escolhida:

"Não é com você,
Não é com ninguém,
É com a ..................,
Prá ser o meu bem."

As duas, com as mãos enlaçadas e os braços cruzando-se, saíam dançando, dentro ou fora da roda, seguidas do bando, em mesmo passo, cantando:

"Dança, que dança,
Maria Constança!"
Ou:

"Senhora dona Sancha,
coberta de ouro e prata,
descubra vosso rosto,
queremos ver a prata!"

A menina agachada no meio da roda, com o rosto coberto com as mãos, levantava-se descobria o rosto e saía em perseguição das companheiras. Quem se deixasse pegar seria a nova Da. Sancha.
Havia uma brincadeira em que se escolhia uma profissão e se cantava, por ex:

"A lavadeira faz assim,
faz assim, também assim".
e se repetia o gesto, a mímica, no caso. Não consigo me lembrar de modo detalhado.
O bom mesmo, era brincar, meninos e meninas na nossa rua, do nosso quarteirão, pois eramos muitos, de "boca de forno".

-Boca de forno! (mestre)
-Forno. (coro)
Fazer um bolo! (mestre)
Bolo! (coro)
Farei tudo o que o mestre mandar?
Faremos! (coro)
E o mestre mandava toda a imaginação na ordem de tarefas, muitas engraçadas, como cumprimentar um morador da rua, que se surpreendia com o bando de crianças desejando-lhe "boa noite!". Era muito divertido.
A noite, o bando alegre da criançada enchia de sons estridentes o ar sossegado, é certo, mas era certo também que nossa infância se "esbaldava" nas brincadeiras de rua, sob o céu estrelado...

18/06/96


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