"É a Ilmen!"

Capítulo Teatro

Uchoa não pode ser acusada de, no passado, deixar em branco a página do teatro. Tivemos até um grupo teatral, os "Filhos de Talma", mistério de nome que eu, criança, tentava entender ou desvendar. Eu chegava até a Grécia antiga onde algum Talma, com seus filhos, amassem a arte cênica.... Só hoje sei que Francisco José Talma foi um ator francês (séc. XVII - séc. XIX), muito querido por Napoleão I, e que o Sr. João Torres, um guarda-livros de Uchoa, tornou-o por referência na designação do grupo que ergueu na cidade representações no cinema local. Luisinho, um filho adotivo do Sr. João Torres, era o "cômico" da companhia de amadores locais.
15/10/97

(Louvor ao Sr. Torres pelos seus "conhecimentos literários"). O certo é que no pano de boca do teatro (nós tínhamos um "cine-teatro") se lia em grandes letras de forma, no alto, e toda largura: "FILHOS DE TALMA". Foram várias as ocasiões em que, sob a direção do Sr. Torres e de seus filhos, assistimos a um teatro amador e de boa vontade.

Também Uchoa teve o seu autor teatral, na pessoa do Acyr, meu irmão, já premiado uma vez pela revista "Carioca", do Rio, num concurso de contos. No elogio ao autor, a revista destacava o valor oculto do jovem do interior, às vezes superior aos que "estadeiam esse valor pelas capitais".

Acyr escreveu duas peças apresentadas no palco, em Uchoa "O homem no ano 2000", comédia satírica sobre a dominação feminina cada vez maior e já presenciada na época. O bispo, D. Laffayette assistiu à peça; elogiou o autor e só fez alguma restrição às prováveis "pimentinhas". O bispo se achava em visita pastoral e é digna de nota sua presença num ato local, profano. Era mesmo um pastor com suas ovelhas.

Na segunda peça, "O grande ditador", fazia-se alusão a Hitler, seus ministros e asseclas. Estávamos em plena 2ª guerra mundial. Eu me lembro de que o Jefito fazia o papel de Goebbest; o Bruno Morato, o de Mussolini; o Avelino Silveira (Bim), a voz da Consciência. Foi muito boa essa apresentação. O papel de Hitler foi atribuído ao meu primo Mauro Mattos, caracterizado com uma farda branca, talabar, cabelinho na testa e o inconfundível bigodinho. Ao final da apresentação, dada a atualidade do tema, que não poderia trazer um final feliz à história, ninguém da platéia se moveu. Foi preciso que uma voz se erguesse: "Acabou!" Aquela voz trouxe realidade à platéia, que aplaudiu fortemente, encerrando o espetáculo.

Vale registrar aqui os inúmeros teatrinho infantis, escolares, com bailados comédias, recreativos, cantos, etc...levados no cinema . Não esquecer: "Cine Teatro Central".

Artistas profissionais também passaram por lá: Itala Ferreira, Adelina Fernandes (fadista), Randall Chocolate (dançarino negro que me faz supor seja o depois famoso Chocolate de "Torrentes de paixão"); Duo Ferraz”, um casal de atores que encenaram peças não sei como, sendo apenas dois na companhia Cornélio Pires, contador de "causos" caipiras; e outros, talvez. Até um suposto filho de Procópio Ferreira.
Nem seria preciso afirmar que as filas e a platéia do cinema sempre estiveram à altura das expectativas, repletas de um público audacioso; interessado no espetáculo que viria quebrar a rotina cotidiana e tranqüila de uma pequena cidade do interior do oeste paulista, a quilômetros da Capital.

Ainda vou falar sobre o "Duo Ferraz", em outro dia.
21/10/97


O "Duo Ferraz" surgiu em Uchoa numa turnê rápida e precisou de uma garota que representasse a filha de um casal (eles como os atores), na peça. Esta envolvia um casamento em crise e disputavam, creio eu, a criança. E quem assumiu o papel da menina em questão? Eu, sob a recomendação do Sr. Alfredo Lopreto, proprietário do cinema. Vieram me procurar porque, segundo o Sr. Alfredo, era "inteligente e desembaraçada"...
Lá fui eu vestida de roupa humilde, para o palco. Só devia chorar e preferir a suposta mamãe do momento. De cima, na cena, ouvi um menino gritar:
- "É a Ilmen!" Nem me abalei, continuei firme no papel e recebi, após o espetáculo, 900 réis (90 centavos + - hoje) em pilha de moedas que a moça, a atriz do Duo, ajuntou na mesa do camarim. Posso dizer que já tive o meu "salário" de "arte dramática"... e sem ter de decorar o texto! O meu cachê...

Às vezes releio o que escrevi e vejo nele o ar de redação escolar. Faz de conta que eu estou conversando, sem me preocupar com a linguagem literária, erudita. É toda coloquial e bem sincera toda lembrança que me acode. Vou deixando escorrer as lembranças do passado. (Vejam como não consigo policiar as repetições. Elas saltam como as palavras mais fáceis e oportunas.)
16/01/98


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