O trem e a estação

Naquele tempo, havia quatro horários de trem que paravam na estação de Uchoa, dois que "subiam" para São Paulo e dois que "desciam" de São Paulo. O trem noturno que vinha de São Paulo, era o que trazia as revistas, jornais, encomendas. Aos sábados e domingos, quando se aproximava sua chegada, todos desciam até a plataforma. A juventude que fazia o footing esvaziava a praça. Para fazer o que? Ver o trem passar, iluminado, lotado de passageiros, esperar quem descia. Era um agrupamento ordeiro, alegre, de muita conversa. A plataforma lotava. Talvez por isto, a administração da Estrada de Ferro Araraquarense, pelo final da década de 30, vedou o acesso à plataforma pelas laterais e fechou a sala de espera com um portão de madeira. Para passar, só pagando bilhete. O portão matou o costume, já que impunha um custo para chegar ao local da observação, antes franqueado. Na ocasião, papai escreveu um artigo em seu jornal, O Direito, criticando o portão de madeira, que a seu ver, desmerecia a estação da cidade. Sua publicação resultou na mudança do portão de madeira para um de ferro, de melhor qualidade. De todo modo, a festa havia acabado. Não pode ficar sem registro, porém, a espera do trem no carnaval, devido à chegada do Emílio Garcia. Ele era irmão da Maria, minha amiga e filho do Sr. Garcia, que era nosso vizinho e motorista de táxi (naquela época dizíamos choffeur de praça). O Emílio trabalhava em São Paulo, mas o carnaval vinha passar em Uchoa. Quando o trem parou, ele desceu do trem fantasiado de Carlitos, com bengala, chapéu-coco, bigode e todos os trejeitos característicos da personagem. Todos o acompanhavam, enfeitiçados pela caracterização, pela alegria e pelo espírito de carnaval. À noite, a sessão do cinema era interrompida e o Emílio entrava pela porta principal e passava pelo corredor central do cinema com sua fantasia sob os aplausos e assobios da platéia. Não há portão que encerre a memória e tudo que representaram aqueles felizes momentos.


14/07/2007


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